Eai meu velho amigo, como andam
as coisas? Devem estar ótimas, bem melhores. Como posso começar esse texto?
Bom, vou começar tropeçando nas palavras, depois eu pego o jeito.
Lembro quando você morava longe,
muito longe. Morava num lugar inalcançável.
Depois, morou um pouquinho mais
perto. E logo logo, já era meu amigo da esquina. Noites e dias, dias e noites,
blablabla o tempo todo
Para minha surpresa, você virou
meu vizinho. Não dava pra acreditar! Vizinho? Sim. Lembro quando passava na sua
casa, e ouvia suas músicas. E minhas músicas também. Meus olhos brilhavam tanto
quanto os seus quando o assunto era música.
Você propunha coisas para
fazermos, eu dizia sim. Sim. Sim. Claro que se fosse algo que eu realmente não
quisesse fazer, eu diria não. Mas mesmo assim, eu ainda pensaria duas vezes
antes de dizer não. Eu tinha medo, eu me sentia descartável. Era isso, agora eu
entendo. Eu me sentia descartável como uma boneca. “Se essa não aceitar isso,
eu pego outra”. Boba.
Tempo vai, tempo vem. Tempo
passa.
Meu colega de quarto! Acredita?
Pra quem morava longe, num lugar inalcançável. Se tornar meu colega de quarto?!
Assim, tão perto? Tão confiável?
Não me sentia mais descartável. A
um tempo eu já dizia não a certas coisas, mas com desculpas. Me desculpe
querido amigo, por ter mentido. Mas, quando eu inventava desculpas era porque
ainda me sentia um pouco descartável. Idiota.
Bom, agora que somos colegas de
quarto, posso parar com as desculpas, e
dizer o que quero, e o que não quero. Simples assim. Chega de mentiras e
de enganações.
Não.
Estava enganada. Mas não me
arrependo de nada. Se disse não, poxa, é porque não quero. Simples. Só eu sabia
que já tinha me sacrificado varias outra vezes.
E foi isso. Amigo deveria ter
sido sincera, desde o começo sabia como o livro iria terminar. Eu sabia.
Bom, fomos para Golden Bridge. Se
lembra? Nesse dia eu estava feliz, o dia mais feliz da minha vida. Como assim?
Nem eu entendia. Todo mundo veio falar comigo, muita gente mesmo. E ninguém
entendia porque eu estava feliz. Muitos disseram que nunca tinham me visto tão
alegre. Eu também não sei porque. Não tem uma explicação lógica. Cadê as
lágrimas? Será que não haveria nenhuma? Não sei. Só me sentia, alegremente,
radiantemente, feliz. E foi assim nas seguintes semanas.
Então, de um lugar inalcançável
passou a meu amigo da esquina, depois vizinho (com nossas músicas). Depois
colega de quarto. Agora, você se mudou. Pra onde? Não sei. Nem sei se me
importo. Acho que sim, acho que não. Sei lá.
Mudou-se. Amigo, para onde? Amigo?
Nem disso acho que posso te chamar. Talvez, colega? Conhecido? Alguém que eu já
conheci...
Não sei. Essas palavras são
cruéis. Sinto que não estão certas. Mas são tudo que me resta. Tudo.

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